É possível ensinar pela Capacidade de Aprender?

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Há algum tempo tenho dito e escrito pequenos comentários sobre os aspectos que envolvem o processo de avaliação vigente, ou melhor, a séculos, na esmagadora maioria das instituições de ensino, públicos e privados, no Brasil e no exterior: Avaliação dos “Conhecimentos Assimilados”. Ou, para não polemizar, Conhecimentos Aprendidos.

Não sou especialista em educação, então esta opinião é baseada em vivências próprias, observações e leituras sobre o tema. Não se propõem a ter validade científica, mas promover a reflexão e discussão.

Conhecimento Aprendido

Basicamente, nos ensinos fundamental e médio, o que ocorre é um processo que se propõem a educar com a transferência de conteúdos que são posteriormente avaliados através testes, provas e alguns poucos trabalhos. Desta forma, a instituição, através de critérios previamente estabelecidos de notas, tão somente avalia se houve aprendizado dos conteúdos, determinando o sucesso ou insucesso dos alunos.

Se houver continuidade para o ensino superior, a seleção dos “aprovados” também ocorrerá por meio da chancela dos conhecimentos mínimo esperados nos testes de ingresso. E os resultados dos aprovados é utilizado pelas instituições de origem dos “aprovados” como uma validação da sua competência. E esta competência, autocreditada, sempre será maior, quanto mais graduada e reconhecida for a instituição de ingresso. E ainda, o reconhecimento da competência ocorre somente para a instituição do último ano ensino médio do aluno e/ou algum curso preparatório para os testes de ingresso, sem considerar a história do aluno.

Ou seja, há um período de no mínimo 12 anos no Brasil, entre ensino fundamental e médio, que resumem uma realidade de validação de Conhecimento Aprendido e tão somente isto. No ensino superior, isso pouco muda, mas o volume de desenvolvimento crítico é um pouco maior.

Pressuponho que o sistema de educacional acredite que o método de avaliação dos conhecimentos aprendidos desenvolve a habilidade do raciocínio pela exposição constante de conteúdos e a consequente necessidade de estuda-los. E também pressuponho que acreditem que, quanto mais alta for a avaliação obtida por um aluno, maior a sua inteligência.

Tenho questionado algo que me parece simples, sem questionar a existência de avaliações:

E a Capacidade de Aprender?

Por que não é considerado a Capacidade de Aprender? Confuso? Nos parágrafos anteriores relatei que processo de educação vigente há séculos, talvez com exceções, avalia o aprendizado dos conteúdos ofertados e não a Capacidade de Aprender.

Não, não é a mesma coisa. Um exemplo da minha filha com seus 12 anos. Na escola que estuda no 6º ano, tem 97% do total de notas possíveis de conquistar, resultante de trabalhos e constantes provas que avaliam os conhecimentos aprendidos por ela. Não sei se é melhor média do ano que ela frequenta, mas creio que está entre os melhores. Esses 97% credenciam que ela é mais inteligente que os demais? Depende.

Depende do que vamos considerar inteligência. Conheço vários colegas dela. E pela proximidade da convivência das famílias, convivemos mais com alguns. Elas têm o mesmo desempenho de notas da minha filha. Não. Algumas mais próximas e outras mais distantes.

Mas observo em todas, muita desenvoltura, opiniões, organização própria e, como a grande maioria da sua geração, realizam fotos e vídeos no Instagram, Snapchat e Musical.ly. Este último exige uma capacidade de criatividade, desenvoltura, sincronia e colaboração que tenho muitas dúvidas de quantos profissionais de sucesso poderiam realizar. Algumas gostam de cozinhar, outras de cantar, dançar, desenhar… Seguem e acompanham diversos youtubers sem o mínimo interesse de saber onde foi que estudaram ou como foram avaliados. Alguns, inclusive, são até mais novos que eles.

Como tenho muitos jogos colaborativos em casa, quando há alguma oportunidade das famílias de estarem juntas, jogo com elas. A capacidade de solução e foco nos jogos é superior à minha em muitos momentos.

Há alguns colegas delas que tem dificuldade na absorção de alguns conteúdos e, por consequência, quando são avaliados por isso, obtém resultados baixos. Entretanto, possuem toda a desenvoltura em jogos de videogames que a minha filha não tem, conversam com fluência sobre os seus youtubers preferidos, seus personagens preferidos, sobre cantoras, cantores, ídolos do esporte, times.

Pergunto: eles não têm capacidade de aprender sobre assuntos que lhes interessam? Sabem realizar atividades e conhecem assuntos que a minha filha não domina?

E ela poderia aprender sobre o que eles gostam? Depende… Depende??? Sim, depende, pois será que esses assuntos interessam a ela? Mas espera um pouco….. provavelmente nem todos os assuntos que ela aprende na escola interessam a ela e mesmo assim ela tem uma excelente avaliação. Sim, tem, porque para ela, obter as melhores avaliações é o seu grande desafio. É isso que mantém a sua capacidade de aprender em alta e a motiva a absorver os conteúdos, inclusive aqueles que não a interessam. Um dia ela me disse:

“Pai, não me importa as minhas notas em relação as dos meus colegas. Importa a minha nota em relação a mim. Eu quero ser sempre melhor do que eu posso ser.”

Outro dia ela estava chateada com o curso de Inglês dela. Uma escola com uma certa reputação. Chateada porque estava achando pouco desafiadora e, por consequência, fácil. Questionei a escola se ela não deveria subir de nível. Disseram que iriam avaliar ela…adivinhem??? Por um teste. Já sabia qual seria o resultado. Que não subiria de nível porque não saberia responder sobre assuntos do outro nível. E foi o que ocorreu. Em nenhum momento a escola tentou avaliar a capacidade dela de aprender. Em nenhum momento ela foi desafiada. Qual foi a nota do final do semestre? Tudo VG – “Very Good”. Pois bem, comentei que aquela nota não refletia o que ela poderia realmente ter aprendido. Pois lhe foi negada essa opção.

Portanto, ela não terá nenhum interesse em aprender ou obter bom desempenho em atividades que não são desafiadoras. E assim, aquele colega que é excelente em determinado jogo ou sabe tudo do time de futebol dele, terá melhor desempenho, em uma eventual avaliação com a minha filha, sobre esses temas.

Ambos não têm Capacidade de Aprender e aprender e aprender? Acredito piamente que sim, sempre naquilo que os desafia.

A Capacidade para Aprender está relacionada ao interesse e, principalmente, ao desafio. Tanto é que a Apple, propôs para a sua educação corporativa e outros projetos, uma variação interessante na metodologia do PBL – Problem Basic Learning (Aprendizado Baseado em Problemas) ou, posteriormente, Project Basic Learning (Aprendizado Baseado em Projetos): Desenvolveram o CBL – Challenger Basic Learning – Aprendizado Baseado em Desafios. Eles entenderam que o que move as novas gerações, e mais precisamente os millennials, são desafios. E com isto estão obtendo sucesso nos seus objetivos.

Desafios podem promover inteligências múltiplas pelas diversas variáveis que podem ser introduzidas neles. Não privilegiando somente o modelo lógico-matemático e linguístico.

E aqui fica a provocação: teríamos, neste caso, desempenhos melhores dos nossos jovens estudantes do que o modelo tradicional, ao promover um modelo que incentiva o pensar através de desafios? E por desafios, promover interesses diversos nos estudantes e desenvolver diversas inteligências?

É um erro enorme acreditar que por termos mais a aprender, necessitamos ensinar mais. Gardner

Na linha do que Gardner defende, o desenvolvimento está muito além da resposta certa! Mais do que aprender ciências, é preciso desenvolver o pensar científico, mais que aprender história, é preciso desenvolver o pensar investigativo e crítico, mais do que aprender matemática, é preciso desenvolver o raciocínio lógico, mais do que aprender português e outras línguas, é preciso promover a curiosidade pela etimologia, e pelas artes, pela natureza, pela criatividade, inovação, empreendedorismo… Em outro artigo, vou falar sobre a capacidade de aprender e a criatividade e inovaçãõ.

Então, voltando ao desempenho da minha filha. Os seus 97% de aprovação significam que ela terá sucesso profissional ou maior sucesso profissional que os demais? Que ela será uma empreendedora de sucesso? Acredito que sim, mas não pelos seus resultados na Escola, mas pela promoção de competências e habilidades que eu promovo com ela e fundamental porque acredito na Capacidade de Aprendizado dela.